segunda-feira, 11 de abril de 2016

Transtorno do Espectro do Autismo - atualização

O site "Pedline", idealizado pelo colega cirurgião pediátrico Rogério Fortunato, tem o propósito de tornar-se uma fonte de auxílio aos pais para acesso a diversas condições pediátricas. Para acessar a matéria na íntegra, basta clicar na figura abaixo.

Fonte: Pedline (http://pedline.org.br)
Ano: 2016



 

TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO
Atualização



INTRODUÇÃO. O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é uma condição neuropsiquiátrica  que se caracteriza por alterações em três áreas do desenvolvimento infantil: relacionamento social, comunicação social e comportamentos. Tais características costumam surgir durante os primeiros três anos do desenvolvimento, mas, há indivíduos que manifestam as mesmas de forma perceptível mais tardiamente.

EPIDEMIOLOGIA. Aproximadamente 1 em cada 100 crianças apresenta TEA, com número crescente de casos, sendo mais comum do que a Síndrome de Down. Há hipóteses que tentam explicar o aumento do número de casos na população: melhora da capacidade de reconhecimento da condição, maior divulgação sobre o assunto, além de fatores ambientais “ativando” características genéticas.

O TEA é diagnosticado cerca de quatro vezes mais no sexo masculino do que no feminino. Porém, em meninas, é mais comum a existência adicional de deficiência intelectual, provavelmente porque o sexo feminino sem comprometimento intelectual apresenta quadro mais leve de prejuízos sociais e da comunicação, com reconhecimento mais difícil.

 Os pais de crianças autistas que pensam em ter outro filho frequentemente angustiam-se com o medo de que nasça outro indivíduo com o mesmo diagnóstico. Para diminuir essa preocupação, o ideal seria que esses casais recebessem a orientação de um médico geneticista para investigação de causas que possam ocorrer novamente (Síndrome do X-Frágil, por exemplo). Mas, geralmente, as chances de um segundo filho autista são as seguintes: 4% (se o primeiro filho com TEA for do sexo feminino); 7% (se o primeiro filho com TEA for do sexo masculino). Se um casal possui dois filhos portadores do TEA, o risco de que o terceiro filho apresente a mesma condição aumenta bastante (25-30%).   

HISTÓRIA. em 1867, o médico inglês Henry Maudsley descreveu crianças com comportamentos estranhos como portadores de “psicose infantil”. Após, em 1943, o psiquiatra austríaco Leo Kanner observou crianças que se afastavam-se dos outros, não utilizavam a linguagem para comunicar-se, e insistiam em brincar sempre do mesmo jeito. Surgia, então, o termo ““distúrbio autístico do contato afetivo”. Kanner também utilizou o termo “mães geladeiras” para definir aquelas que se mantinham frias e distantes de seus bebês recém-nascidos, levando-os a desenvolver autismo.

 No século passado, antes da década de 60, através da influência da psicanálise, houve a preferência pelo termo “psicose infantil”. Nas décadas de 60 e 70, no entanto, surgiram evidências de que a psicose e o transtorno do espectro do autismo não eram sinônimos; na década de 80, houve a confirmação de que eram condições distintas. Atualmente, não há evidência científica de que o autismo seja decorrente de fatores psicossociais, incluindo inadequação familiar.

ETIOLOGIA. Dentre as causas do TEA, destacam-se: fatores genéticos (anormalidades cromossômicas, pequenas deleções/duplicações do DNA, condições decorrentes de um único gene) e metabólicos (erros inatos do metabolismo). Também, há casos de TEA decorrentes de fatores externos (infecções do sistema nervoso central, traumatismo craniano). Porém, muitos casos não são esclarecidos pela limitação da ciência em campo tão complexo.

CONDIÇÕES ASSOCIADAS. Deficiência intelectual está presente em aproximadamente 75% dos autistas (1/3 leve/moderada e 2/3 grave/profunda). Microcefalia (10%) está associada a mau prognóstico, enquanto macrocefalia ocorre em 20-40% dos casos. Epilepsia está presente em 25%.

DIAGNÓSTICO. Para que haja suspeita de qualquer alteração no desenvolvimento infantil, é necessário que os padrões de normalidade sejam reconhecidos. De acordo com a Academia Americana de Neurologia e a Sociedade Americana de Neurologia Infantil, todas as crianças devem ser avaliadas, em todas as consultas pediátricas, até o período escolar, para que sejam detectadas possíveis dificuldades em aceitação social, na aprendizagem ou no comportamento.   

As características mais comuns que aumentam a chance de uma criança ser portadora de TEA são as seguintes:
-Alteração no relacionamento social ® As crianças, em seus primeiros anos de vida, podem apresentar indiferença em relação a terceiros, além de pouco contato visual. As crianças maiores têm dificuldade para apresentar comportamentos esperados para uma situação, além de dificuldade para perceber como os outros se sentem. É comum que consigam contato mais adequado com adultos e crianças mais novas do que com crianças da mesma idade. Os adolescentes têm maior dificuldade para desenvolver amizades íntimas.
-Alteração na comunicação social ® Incluem alterações da linguagem verbal expressiva (fala) e receptiva (compreensão), além da comunicação não-verbal (gestos). Pode haver diminuição do balbucio, atraso na fala ou ausência de fala útil (esse ocorre em aproximadamente 50% dos autistas), repetição de palavras e frases de outras pessoas (ecolalia), inversão pronominal (“você gosta” ao invés de “eu gosto”), uso de palavras e de frases fora do contexto, além de palavras inexistentes (neologismos). O discurso é substituído por monólogo, geralmente para exigir algo (no imperativo). Prejuízo na entonação das palavras (prosódia) e dificuldade para perceber que os assuntos de seu interesse não são interessantes para os ouvintes geralmente ocorrem.
-Alterações no comportamento ® O portador de TEA costuma apresentar grande dificuldade para brincar de faz-de-conta (pensamento simbólico). Há insistência em um determinado interesse (canudos, por exemplo), grande dificuldade em ser contrariado, gosto por rotinas rígidas, movimentos repetitivos e intencionais (estereotipias), além do hábito de enfileirar objetos. Interesses excêntricos e restritos, como detalhar sobre o surgimento do universo ou descrever sobre o funcionamento da ressonância magnética (“ilhas de precocidade”), podem surgir. Agitação psicomotora, acessos de raiva, auto / heteroagressividade, insônia, seletividade alimentar, além de doenças físicas (infecções, sintomas gastrointestinais, convulsões febris) ocorrem com frequência.

Os sinais de alerta que exigem intervenção especializada incluem: não balbuciar até 12 meses de vida, não gesticular (apontar, acenar) até 12 meses, não pronunciar ao menos uma palavra até 16 meses, não pronunciar frases com ao menos duas palavras espontâneas até 24 meses, além de perda de habilidades sociais ou de linguagem em qualquer idade. A equipe deve incluir, preferencialmente: psiquiatra da infância e da adolescência, neurologista pediátrico, geneticista e psicólogo. Preferencialmente, esses especialistas devem ter experiência em assistência a portadores de TEA.

Os exames complementares devem ser solicitados de acordo com o caso, visto que uma avaliação clínica bem feita direcionará a investigação diagnóstica posterior. Por exemplo, uma criança autista com deficiência intelectual moderada e Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDA/H) que apresente macrocefalia, orelhas proeminentes, face alongada e hiperextensão articular pode apresentar a Síndrome do X Frágil. A solicitação de exame específico (neste caso, a análise molecular do gene FMR1) evita investigações sem foco no diagnóstico.

TRATAMENTO. As intervenções terapêuticas devem ser multidisciplinares, incluindo:
-Análise comportamental aplicada (ABA) ® É uma das intervenção validadas para crianças com TEA, ganhando cada vez mais reconhecimento como um programa de intervenção comportamental “em casa”.
-Terapias pedagógicas, fonoaudiológicas e ocupacionais ® Adaptação para as necessidades específicas de cada criança.
-Tratamento psiquiátrico ®Tem, como um dos objetivo, permitir que a criança tenha atenuação do sofrimento psíquico causado pelas comorbidades psiquiátricas (30% dos casos): TDA/H, auto/heteroagressividade, Transtornos Psicóticos, destrutividade, Transtornos Depressivos, Transtorno Bipolar, Transtorno de Tiques, dentre outras. A melhora no desenvolvimento, além da inclusão educacional e familiar da criança e sua inclusão, são metas adicionais.

CURSO E PROGNÓSTICO. Ausência de deficiência intelectual e uso de linguagem comunicativa iniciada até 5 - 7 anos melhoram o prognóstico. Cerca de 2/3 dos adultos com TEA dependem de familiares ou instituições, e 1-2% adquirem uma condição de vida normal (independência / emprego). Entre 5-20% alcançam condição normal limítrofe.

Caso haja ambiente que satisfaça as necessidades dos indivíduos autistas, a melhora adicional do prognóstico será possível. O passo inicial é a detecção precoce. Uma sugestão seria a utilização sistemática da Caderneta de Saúde da Criança (10ª edição – 2015 – Ministério da Saúde), que oferece dados sobre o desenvolvimento mental, emocional e social esperados para crianças na primeira infância (nascimento até 6 anos). Pais que são incentivados pelos pediatras a acompanhar o desenvolvimento de seus filhos estarão mais aptos a perceber qualquer alteração, aumentando as chances de investigação o quanto antes.

                       

"Em nenhuma circunstância as informações aqui publicadas substituem a consulta com o seu médico"
"Para mais informações procure sempre o seu Psiquiatra da Infância e da Adolescência e realize uma consulta presencial antes de qualquer iniciativa"

DR. BRUNNO ARAÚJO NÓBREGA
PSIQUIATRA DA INFÂNCIA E DA ADOLESCÊNCIA
CRM-SP 118.392

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