Parceria entre Educação e Saúde Mental do Escolar

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Depressão, o "Mal do Século": visão do não-médico

Compartilho uma grande contribuição sobre o Transtorno Depressivo Maior, na ótica de uma pessoa sem formação médica, mas, com sensibilidade suficiente para aprofundar na intimidade humana e mostrar a nós, psiquiatras, que temos que evoluir continuamente enquanto profissionais e, principalmente, enquanto pessoas.

Você é grande, Everaldo!

DEPRESSÃO
― O Mal do Século ―

Everaldo Dantas da Nóbrega


Atualmente a depressão é tida como como o Mal do Século, devido à sua grande incidência junto à população mundial e, também, face às sequelas que provoca, sejam elas passageiras ― não menos dolorosas ― ou permanentes. E mesmo porque ela pode levar seu portador a ações extremas, dentre essas o suicídio.
Isso despertou e conscientizou os principais interessados ― pacientes, familiares, psiquiatras e psicólogos ― da necessidade de se aprofundarem cada vez mais no seu estudo (lendo, assistindo a palestras, buscando informações etc.), procurando, assim, caminhos para o tratamento adequado. É que, conhecendo-a melhor, haverá maiores possibilidades de se combatê-la com mais eficácia, de se atenuar sobremaneira os seus sintomas e até mesmo debelá-los em definitivo, alcançando a cura.
Como o bom professor, o ótimo palestrante e o orador envolvente assim o são por conhecerem em profundidade os temas que abordam, também o paciente da depressão, "mutatis mutandis", só terá êxito no seu tratamento e combate se conhecê-la a fundo. É que, dessa maneira, ele inteirar-se-á de sua gravidade e, portanto, conscientizar-se-á que deverá:

● assumir, sem nenhum preconceito ou medo, que está com tal doença;
● procurar imediatamente, sem vacilo, ajuda junto aos familiares e amigos de confiança;
● ter vontade e se determinar a curar-se;
● procurar os profissionais da área da psiquiatria para prescrição da medicação e da psicologia para a terapia respectiva, de preferência ambos trabalhando em parceria;
● a depressão não pode ser curada a curto prazo;
● os remédios só começam a fazer efeito depois de alguns dias e ter paciência para superar essa realidade;
● seguir à risca as recomendações do médico e do psicólogo;
● tomar a medicação como prescrita e nos horários recomendados pelo médico;
● exercitar-se física e mentalmente;
● alimentar-se bem;
● dormir aproximadamente oito horas diárias, de preferência à noite;
● não ingerir de modo algumas bebidas alcoólicas durante o tratamento;
● ter ocupações e lazer;
● não se isolar e procurar a companhia de familiares e amigos;
● evitar as “quatro paredes” (o quarto) e a cama (ou a rede) ― os maiores aliados da depressão ― nas horas que não forem para o descanso e o sono noturno;
● afastar-se o quanto possível de problemas e de pessoas que os causem com frequência;
● cuidar não só da mente e do corpo, mas também do espírito,


além de adotar outras medidas que possam ser necessárias tomar no curso do tratamento, mas tudo com vontade, perseverança e determinação.
Realmente, sem isso o paciente não consegue êxito parcial muito menos total, vez que a depressão praticamente despersonaliza o paciente e procura enfraquecê-lo física e mentalmente cada vez mais, induzindo-o a não reagir e procurar sempre o falso conforto do isolamento, do quarto e da cama, quando ela, então, se enraíza ainda mais, dificultando sobremaneira a sua cura.
O tratamento da depressão é como a luta entre Davi e Golias, mas, da mesma maneira, usando-se as técnicas apropriadas poder-se-á chegar à vitória contra esse mal que também é conhecido como o Demônio do Meio-Dia, isso em virtude de ser nesse horário que ela, a depressão, se manifesta com mais vigor e intensidade.
Agindo dessa maneira, o paciente e seus familiares vão perceber que, diferentemente do que prega a lenda urbana, a depressão tem cura, sim. E definitiva.

João Pessoa, 22 de abril de 2016

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Transtorno do Espectro do Autismo - atualização

O site "Pedline", idealizado pelo colega cirurgião pediátrico Rogério Fortunato, tem o propósito de tornar-se uma fonte de auxílio aos pais para acesso a diversas condições pediátricas. Para acessar a matéria na íntegra, basta clicar na figura abaixo.

Fonte: Pedline (http://pedline.org.br)
Ano: 2016


 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Classificações de videogames

Qual o efeito dos jogos inadequados para o desenvolvimento de crianças e de adolescentes? O tema é polêmico, mas, há critérios baseados em um sistema de classificação denominado Entertainment Software Ratings Board (ESRB). Esse sistema auxilia pais, a exemplo das classificações etárias existentes para programas de TV, a escolher o que é mais adequado para seus filhos.

Para os pais, indico a leitura do manual "The Modern Parent's Guide to Kids and Video Games", de Scott Steinberg. É extenso, mas, abrange desde benefícios até conflitos relacionados aos jogos, além do advento dos jogos online. 

Abaixo, uma sinopse sobre o tema, disponibilizada pela Microsoft.
 
Fonte: Microsoft
Ano: 2004
Assim como no ramo de filmes, a indústria de videogames possui um quadro de classificações para ajudar os consumidores a fazer escolhas apropriadas de entretenimento para eles e sua família. O Entertainment Software Ratings Board (ESRB) oferece classificações mais abrangentes e específicas do que as da indústria de filmes para que os pais possam adquirir confiança sobre o tipo de jogo antes de saírem da loja. Aprender sobre o sistema de classificação de jogos é fácil e este manual irá ajudar com muitas das dúvidas que os pais têm a respeito deste assunto.

Sistema de Duas Partes

O sistema ESRB inclui duas partes.
Classificações
Descrições de conteúdo (da maioria dos títulos)
Assim como com os filmes, as classificações recomendam um nível de idade apropriado para cada jogo. Também como a classificação de filmes, as descrições de conteúdo relatam o assunto específico que contribuiu para a classificação e/ou o assunto de interesse.
É tarefa sua imaginar se o jogo inclui combates militares ou corridas de carro, mas, se houver sangue, as descrições irão informar.

Classificações

Virtualmente, todas as prateleiras de lojas de videogames aparecem com uma das cinco classificações da ESRB. Essas são as categorias mais amplas, que podem ajudá-lo a decidir se o jogo é próprio para seus filhos ou não.
As seguintes descrições de classificação são tiradas do Site oficial do ESRB:
Classificações da ESRB
EC: Early Childhood
EC (Childhood, ou Infantil)
O conteúdo pode ser adequado para idade a partir de 3 anos. Não contém material que os pais irão considerar impróprios.
E: Everyone
E (Everyone, Todos)
Conteúdo adequado para crianças a partir dos 6 anos. Podem conter traços mínimos de violência e situações cômicas ou linguagem não refinada.
T: Teen
T (Teen, Adolescente)
Conteúdo adequado para pessoas a partir dos 13 anos. Pode conter conteúdo violento, linguagem forte e/ou temas sugestivos.
M: Mature 17+
M (Mature 17+, Jovens 17+)
Conteúdo adequado para jovens a partir dos 17 anos. Pode conter temas sexuais maduros ou de violência e linguagem mais intensa.
AO: Adults Only 18+
AO (Adults only, Somente para Adultos) 18+
Conteúdo adequado somente para adultos. Pode incluir descrições gráficas de sexo e/ou violência. Não recomendado para menores de 18 anos.
RP: Rating Pending
RP (Rating Pending, Classificação Pendente)
Usada em propagandas de jogos que serão lançados em breve. Significa que o jogo ainda não está concluído, não foi oficialmente classificado ou ambos. Geralmente os fãs do jogo começam a discutir sobre ele antes de serem lançados.

Vire a Caixa para Ver a Descrição do Conteúdo

Os jogos de computador para venda e locação apresentam a classificação na frente, tanto na parte direita, embaixo, como no canto esquerdo. Caso queira mais informações, vire a caixa e leia a descrição no verso (também na parte inferior). O que está no jogo será descrito por um ou mais de 24 descritores diferentes. Cada descrição deve ser lida cuidadosamente, pois nem todas indicam a questão de assuntos impróprios e nem todas são igualmente rígidas. Pegue as citações de Violência, por exemplo — Violência de Fantasia definitivamente não parece vida real. Outras classificações de Violência podem ser médias, intensas ou intermediárias. Esta lista é do site da ESRB:
Referência ao Álcool — referências a imagens de bebidas alcoólicas.
Animação de Sangue — Descrições de sangue animadas ou em pixel.
Sangue — Descrições de sangue.
Sangue e Mutilação — Descrições de sangue ou mutilação de partes do corpo.
Violência em Desenho animado — Ações violentas envolvendo personagens de desenhos animados. Podem incluir violência em que um personagem está ileso após a ação ter sido feita.
Brincadeiras cômicas Cenas que apresentam palhaçadas ou humor vulgar.
Humor Cruel Descrições moderadamente vulgares, incluindo humor de banheiro.
Referência às Drogas — Referência a imagens de drogas ilegais.
Indução — Conteúdo do produto fornece ao usuário desenvolvimento ou reforço de conhecimentos específicos aprendidos dentro de uma série de entretenimento. O desenvolvimento do conhecimento é parte integral do produto.
Violência de Fantasia — Ações violentas de uma natureza fantástica, envolvendo personagens humanos ou não em situações facilmente distintas da vida real.
Aposta — Comportamento de apostador.
Informativo — Todo conteúdo do produto contém dados, fatos, informações de recursos, materiais de referência ou texto instrucional.
Violência Intensa — Descrições gráficas e realistas de conflitos físicos. Podem envolver sangue extremo, mutilações, armas ou descrições de injustiça e morte.
Linguagem — Uso médio a moderado de linguagem chula.
Letras de música — Referências médias à promiscuidade, sexualidade, violência, álcool ou uso de drogas.
Humor Adulto — Piadas vulgares, incluindo humor de “banheiro”.
Temas Sexuais Adultos — Material provocativo, possivelmente incluindo nudez parcial.
Linguagem Média — Referências médias à promiscuidade, sexualidade, violência, álcool e uso de drogas.
Letras de Música Médias — Referências médias à promiscuidade, sexualidade, violência, álcool e uso de drogas.
Violência Média — Cenas Médias descrevendo personagens em situações inseguras e violentas.
Nudez — Descrições gráficas ou prolongadas de nudez.
Nudez Parcial — Descrições breves ou médias de nudez.
Apostas Reais — O jogador pode apostar em dinheiro ou moeda reais.
Temas Sexuais — Referências sexuais médias e moderadas. Podem incluir nudez parcial.
Violência Sexual — Descrições de estupro e atos violentos sexuais.
Apostas Simuladas — O jogador pode apostar sem dinheiro ou moeda reais.
Certa Assistência Adulta pode ser Necessária — Somente para descrições infantis.
Linguagem Forte — Referências explícitas de promiscuidade para sexualidade, violência, álcool e uso de drogas.
Letras de Músicas Pesadas — Referências explícitas de promiscuidade para sexualidade, violência, álcool e uso de drogas nas músicas.
Conteúdo Sexual Forte — Descrições gráficas de comportamento sexual, incluindo possível nudez.
Temas Sugestivos — Referências ou materiais médios provocativos.
Referência ao Cigarro — Referência a imagens de produtos de cigarro.
Uso de Drogas — Consumo ou uso ilegal de drogas.
Uso de Álcool — Consumo de bebidas alcoólicas.
Uso de Cigarro — Consumo de cigarro.
Violência — Cenas que envolvem conflitos agressivos.

O que Essas Descrições Significam

Alguns descritores são mais específicos que outros, e centenas de jogos variados chegam ao mercado a cada ano. Não é uma tarefa simples organizar todas essas milhares de horas de jogo em categorias precisas com níveis de igualdade aplicados a todos os jogos—deixe de lado os jogos que ainda não foram feitos. Os descritores de conteúdo percorrem um longo caminho para ajudar você a tomar as decisões corretas, mas às vezes é necessária um pouco mais de consideração.
Pegue como exemplo a descrição de Sangue e Mutilação. Você pode não se opor a grandes exércitos em um campo de batalha, com soldados caídos deixando um rastro de sangue para trás. Mesmo assim, há representação de sangue, embora seja a única no jogo todo. Você pode pensar de formas diferentes sobre os monstros que graficamente atacam vítimas humanas, uma por uma, bem de perto. O sistema de "zoom" ou "câmera", em um jogo, pode fazer uma grande diferença, assim como também o faz o nível de detalhes.
Se você está em dúvida sobre o jogo que seus filhos querem, diversos sites (como Gamespot, GameSpy e IGN) classificam jogos. As maiores livrarias possuem inúmeras revistas sobre jogos também. A literatura a respeito de alertas para os pais quanto aos jogos cresceu muito com o tempo. Muitos fãs de jogos são inclusive pais. Se você está em dúvida quanto à adequação de um certo jogo, outros pais provavelmente também estarão. As críticas de jogos podem ajudar.

Verifique a Embalagem

Só porque você não pode julgar um livro pela capa não significa que o mesmo aconteça para os jogos de computador. As embalagens apresentam figuras de como o jogo aparece na tela. Os compradores realmente pressionam os fabricantes a tornar essas figuras mais autênticas. Isso pode ajudar muito ao decidir se o jogo é ou não apropriado para seus filhos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Consultoria em Saúde Mental do Escolar no Brasil: o que esperar?


polbr
Volume 21 - Janeiro de 2016
Editor: Walmor J. Piccinini - Fundador: Giovanni Torello

Janeiro de 2016 - Vol.21 - Nº 1
Psiquiatria na Infância e Adolescência
CONSULTORIA EM SAÚDE MENTAL DO ESCOLAR NO BRASIL: O QUE ESPERAR?

Brunno Araújo Nóbrega *


A grande distância entre os profissionais da escola e dos serviços de saúde mental para a infância e a adolescência ainda é um obstáculo para a implantação de propostas de intervenções aos alunos portadores de transtornos mentais. Relatórios técnicos, contatos telefônicos irregulares, agendas sobrecarregadas devido à escassez de profissionais que abordam os aspectos psíquicos da infância e da adolescência nos serviços públicos, além do estigma em relação ao paciente psiquiátrico, são barreiras adicionais. Promoção e prevenção em saúde mental do escolar, enquanto estratégias baseadas em evidências, não são utilizadas de forma prioritária, devido a sua baixa oferta. Mais do que afirmações pessimistas, são realidades vivenciadas, em proporções distintas, no Brasil e no mundo. As disparidades socioeconômicas em um país de dimensões continentais colaboram, sobremaneira, para a piora do nível educacional do país, sobretudo na rede pública de ensino.

Em 2010, o autor iniciou pesquisas aleatórias acerca de experiências em estratégias em saúde mental do escolar pelo mundo. Foram detectados vários serviços dedicados à área, com destaque para o Canadá e os Estados Unidos da América: Ontario Centre of Excellence for Child & Youth Mental Health, Mental Health Commission of Canada, The Georgetown University Center for Child and Human Development, The California School-Based Health Alliance, The Washington University Mental Health Integration Program, Directions Evidence and Policy Research Group of Canada. Utilizar o conhecimento desses grupos para a realidade brasileira tornou-se um novo obstáculo.

Dois anos após, com apoio e estímulo de um pediatra com interesse singular em alterações do desenvolvimento na infância e na adolescência, foi iniciado um projeto-piloto de consultoria em saúde mental do escolar na cidade de Mogi Mirim-SP, para profissionais da educação e da saúde (redes pública e privada). A experiência foi breve, mas, importante, pois ratificou a necessidade de equipes multidisciplinares integradas sob a coordenação de uma consultoria especializada.

Há um ano, em dezembro de 2014, o contato com as pesquisas de Mina Fazel (Inglaterra) e de Vikram Patel (Índia) impulsionou a formação de uma consultoria em saúde mental do escolar. Por exemplo, Patel tem participação direta em projetos para uma organização não-governamental da Índia (SANGATH): SHAPE (School Health Promotion and Empowerment [2008-2014]) e SEHER (Strengthening the Evidence Based on Effective School-Based Interventions for Promoting Youth Health [2013-2017]). Houve colaboração por parte de pesquisadores, financiadores e instituições colaboradoras. No Brasil, um estudo epidemiológico com crianças e adolescentes de quatro regiões do país concluiu que menos de 20% das crianças e adolescentes com transtornos mentais foram avaliados em serviços de saúde mental nos últimos 12 meses, e detectou que fatores estruturais, psicossociais e demográficos foram associados a acesso desigual àqueles serviços (PAULA et al, 2014).
  
No tocante à educação, a busca pelo seu direito para crianças e adolescentes sempre foi um desafio, principalmente nos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos. Em uma tentativa global de resolver a questão, integrantes de 191 países aprovaram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, incluindo o de garantir que todas as crianças e adolescentes tivessem a oportunidade de concluir o ensino fundamental (United Nations Millennium Declaration, 2000-2001). No Brasil, a despeito do aumento do acesso à escola, o prazo para que tal objetivo fosse concluído, dezembro de 2015, não foi suficiente (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2015).

            A dificuldade para que a saúde (incluindo a mental) fosse abordada como uma das estratégias de melhora da educação brasileira é histórica.  Após o encerramento de 21 anos de ditadura militar, em 1985, a democracia incipiente buscou o aprimoramento das estratégias de educação e de saúde, com aproximação entre os Ministérios da Saúde e da Educação. Na década seguinte, as diretrizes e bases da educação nacional tornaram-se lei, mas, não houve referência à utilização da saúde mental para a promoção da educação.  Em 2005, a saúde na escola passou a ser institucionalizada pelo Ministério da Saúde; dois anos após, por meio de decreto, foi instituído o Programa Saúde na Escola (PSE) (Ministério da Saúde, 2007). Recentemente, em 2013, o PSE instituiu, dentre as áreas temáticas, a Saúde Mental no Território Escolar; foi proposto que houvesse a participação conjunta das escolas, das equipes de atenção básica em saúde, dos Centros de Referência de Assistência Social (CREAS), dos Conselhos Tutelares, das equipes de saúde mental, além de outros setores ligados às políticas públicas que garantissem os direitos de crianças, adolescentes e jovens (Ministério da Saúde, Ministério da Educação, 2015).

O hiato entre proposta e prática de trabalho com os agentes da saúde e da educação pode ser confirmado a partir da realidade da maioria das escolas públicas do Brasil. O encaminhamento de alunos com dificuldades emocionais, comportamentais e acadêmicas a serviços aptos a acolher tais demandas, quando esses estão disponíveis, provê práticas de intervenção, em detrimento da promoção e da prevenção em saúde mental.

Então, por que uma consultoria em saúde mental do escolar é necessária para auxiliar a reestruturação da educação no Brasil? Dentre as justificativas, são destacadas as seguintes (FAZEL et al, 2014):
-Bullying (violência escolar) ® Em países desenvolvidos, atinge 46% dos alunos. Ideação suicida e tentativas de suicídio ocorrem duas vezes mais em jovens vitimados. Há aumento da prevalência de ansiedade, depressão e automutilação nessa população vulnerável.
-Relacionamento fraco entre alunos e professores ® Preditivo de início de transtornos psiquiátricos na infância. Aumenta a possibilidade de baixo desempenho acadêmico, além de Síndrome de Burnout entre os professores; também, colabora para o abandono da profissão de docente.

O gerenciamento das ações em saúde mental do escolar encontra justificativas éticas e científicas para tal: ênfase na promoção e na prevenção em saúde mental, democratização do acesso aos serviços especializados para aqueles que necessitem de intervenção, além da melhora psíquica e do aproveitamento acadêmico (FAZEL, 2014). Para que haja práticas efetivas no ambiente escolar, é mister o trabalho conjunto entre os profissionais envolvidos nesse nicho com a rede de atenção psicossocial.

Em relação aos transtornos mentais e comportamentais de alunos, de acordo com a metanálise de 41 estudos realizados entre 1985 e 2012, em 27 países em todo o mundo, a estimativa de prevalência dos transtornos mentais na infância e na adolescência é a seguinte (POLANCZYC et al, 2015):
-Qualquer transtorno mental ® 13,4%
-Transtornos de ansiedade ® 6,5%
-Transtornos depressivos ® 2,6%
-Transtorno depressivo maior ® 1,3%
-Transtorno do déficit de atenção/hiperatividade ® 3,4%
-Transtornos disruptivos ® 5,7%
-Transtorno de oposição desafiante ® 3,6%
-Transtorno de conduta ® 2,1%

A implementação de consultoria em saúde mental do escolar é um desafio imenso, mas, não é impossível de ser alcançada. Porém, exigirá esforços políticos e técnicos para proporcionar: 1)discussões clínicas regulares acerca de alunos previamente escolhidos pelos orientadores pedagógicos; 2)reuniões com pais e profissionais da escola; 3)contato com profissionais afins; 4)orientação acerca do encaminhamento de alunos que necessitem de cuidados adicionais de saúde mental; 5)aconselhamento sobre os planos de tratamento até que os alunos recebam, efetivamente, cuidados adequados; 6)disponibilização de recomendações ou referências bibliográficas; 7)encaminhamento de alunos que necessitem esclarecer questões psíquicas, comportamentais, familiares e sociais a serviços especializados específicos; 8)reuniões/palestras (presencialmente e/ou por videoconferência; 9)elaboração de materiais educativos (promoção, prevenção e intervenção em saúde mental do escolar).

Com educação de alto nível a partir do cuidado com o ambiente onde as crianças e adolescentes passam a maior parte de suas vidas permitirá que, um dia, nosso país seja formado por cidadãos engajados na missão de transformar nossa nação em um gigante de fato. Outras nações já conseguiram; por que não conseguiremos? 

*Psiquiatra da Infância e da Adolescência, Pediatra, Consultor em Saúde Mental do Escolar. E-mail: drbrunno@psiquiatriaepediatria.com .

Referências bibliográficas:
·         Caderno do gestor do PSE. Ministério da Saúde, Ministério da Educação. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 68 p. : il.
·         Escolas promotoras de saúde: experiências do Brasil. Ministério da Saúde, Organização Pan-Americana da Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. 304 p.
·         FAZEL M; PATEL V; THOMAS S3; TOL W (2014) - Mental health interventions in schools in low-income and middle-income countries. Lancet Psychiatry. Oct; 1(5):388-98.
·         PAULA CS; BORDIN IA; MARI JJ; VELASQUE L; ROHDE LA; COUTINHO ES (2014) - The mental health care gap among children and adolescents: data from an epidemiological survey from four Brazilian regions. Public Library of Science. Feb 18;9(2).
·         POLANCZYK GV; SALUM GA; SUGAYA LS; CAYE A; ROHDE LA (2015). Annual research review: A meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. Journal of child psychology and psychiatry. Mar; 56(3):345-65.
·         United Nations Millennium Declaration. DPI/2163 - Portuguese - 2000 - August 2001. United Nations Information Centre, Lisbon.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Ironia e Piedade - estratégias contra o assédio moral

 


Fonte: Revista Bioética
Título: Assédio moral, ética e sofrimento no trabalho
Autores: Maria Cristina Cescatto Bobroff, Júlia Trevisan Martins
(Impr.). 2013; 21 (2): 251-8




O impacto das relações no ambiente de trabalho em relação à saúde psíquica dos funcionários é perceptível. Conheço várias pessoas que entendem ser perseguidas por seus superiores hierárquicos, mas, não reconhecem a diferença entre divergências e assédio moral. Abaixo, um resumo de texto interessante, que coloca o assédio moral e a ética como fatores que levam trabalhadores a padecer de transtornos psiquiátricos.

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Assédio moral 

 -Sinônimos: violência moral no trabalho, mobbing (assédio psicológico).

-Características: submissão do trabalhador a constantes humilhações e constrangimentos. Se expressa, contudo, em atitudes violentas e sem ética que provocam repercussões negativas na identidade da pessoa assediada, maculando sua noção de dignidade e infringindo seus direitos fundamentais. Degradação deliberada das condições de trabalho, visto que, quando surte efeito, é capaz de instaurar um pacto de tolerância e silêncio coletivos quanto à gradativa desestabilização e fragilização da vítima. Esta paulatinamente perde sua autoestima, duvida de si mesma e sente-se mentirosa à medida que se vê desacreditada pelos outros. Dessa maneira, aniquilam-se suas defesas e abala-se progressivamente sua autoconfiança, dificultando ou mesmo impossibilitando o desempenho de suas atividades laborais e às vezes
familiares e sociais.

-Posicionamento da Organização Mundial de Saúde (OMS): o fenômeno implica, literalmente, em formar "multiatitudes" ao redor de alguém para atacá-lo. 

-Tipos: 1)assédio moral vertical - aquele que decorre de conduta abusiva de superior hierárquico para constranger os subalternos; 2)horizontal - quando os trabalhadores, entre si, têm o objetivo de excluir um ou outro colega não desejável ao grupo; 3)mobbing combinado - união do chefe e dos colegas para excluir o indivíduo; 4)mobbing ascendente – um ou vários trabalhadores julgam-se merecedores do cargo do seu chefe e passam a boicotá-lo.

-Fatores envolvidos: destacam-se a discriminação e a inveja.  

-Efeitos nas vítimas: embora o fenômeno do assédio moral, por si só, não seja uma doença, os efeitos desta prática são capazes de provocá-la. Exemplo clássico de tais repercussões refere-se à ansiedade que o assediado pode apresentar, causada pelo sofrimento a que está sendo submetido e que pode desencadear danos físicos e psicológicos. Pode gerar distúrbios físicos e mentais. Os trabalhadores necessitam ficar atentos aos principais sintomas de assédio moral, que são: crises de choro, insônia, depressão, sede de vingança, sentimento de inutilidade, diminuição da libido, distúrbios digestivos, dor de cabeça, ideia de suicídio, início de alcoolismo, aumento da pressão arterial e tonturas.

-Critérios para reconhecimento: 1)realização de ato abusivo ou agressivo; 2)repetição, frequência (ao menos uma vez por semana) e duração (uma semana a três anos) dessas práticas hostis; 3)intenção do assediador.  

-Avaliação: por profissionais competentes e capazes de relacionar o dano e estabelecer o nexo causal ao ambiente laboral. Salienta-se que o nexo causal desse tipo de violência está nas condições em que o trabalho é realizado e não à atividade profissional em si.

-Legislação: no Brasil também não há uma lei trabalhista sobre o assunto, embora a tipificação do assédio
moral exista. No âmbito federal há alguns projetos de lei sobre assédio moral e coação moral. As normas jurídicas aprovadas restringem-se ao funcionalismo público, em sua maioria são leis estaduais aprovadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além de projetos de lei em tramitação em outros estados. Denota-se que nos serviços públicos o assédio normalmente não está associado à produtividade, mas sim às disputas de poder. Neste contexto, o assédio está atrelado a uma dimensão psicológica, na qual a inveja e a cobiça levam os indivíduos a controlar o outro e a querer tirá-lo do caminho. Tal fato pode estar diretamente ligado à falta de legislação específica, que não determina a impunidade do assediador ou a falta de proteção do profissional assediado. 

Ética:

-Etimologia: ethos (grego) - "modo de ser".

-Definição: conjunto de valores que norteiam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vivem, propiciando, assim, o bem-estar social. 

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Ao ler o livro "A História da Humanidade", de Hendrik Willem Van Loon (Martins Fontes, 2004), cheguei à conclusão de que a ironia e a piedade, utilizadas de forma correta, podem ser utilizadas como estratégias para que as vítimas superem os embates provocados por indivíduos mal intencionados, incluindo os que promovem assédio moral: 

"Quanto mais penso nos problemas que nos afligem, tanto mais me convenço de que devemos tomar a Ironia e a Piedade por conselheiras e juízas, como os antigos egípcios, que invocavam a proteção da deusa Ísis e da deusa Néftis sobre os seus mortos.

"Tanto a Ironia quanto a Piedade são boas conselheiras. A primeira, com seus sorrisos, torna a vida agradável; a segunda santifica a vida com suas lágrimas.

"A Ironia que invoco não é uma divindade cruel. Não zomba do amor nem da beleza. É gentil e bondosa. Seu júbilo nos desarma, e é ela quem nos ensina a rir dos malfeitores e dos tolos, pelos quais, se não fosse por ela, nossa fraqueza nos levaria a sentir desprezo e ódio”.