sábado, 5 de maio de 2018

"Será que meu filho tem TDA-H?" - breve resumo sobre o Transtorno do Déficit de Atenção - Hiperatividade

Dar direito a uma criança, adolescente ou adulto de buscar explicações que justifiquem seus problemas emocionais, comportamentais e existenciais, aumenta as chances desse indivíduo viver de forma mais plena, com mais competências enquanto parte da sociedade. Esse direito poderia ser sintetizado enquanto "esperança":

"Esperança é algo com plumas
Que pousa na alma
E trina a melodia sem palavras
Que nunca, nunca se interrompe."

                                                                                                  EMILY DICKINSON 


Texto (adaptado) da seguinte referência bibliográfica: SADOCK, B. J.; SADOCK, V. A.; RUIZ, P. Compêndio de psiquiatria: ciência do comportamento e psiquiatria clínica. 11. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017.

Tree climbing   (Vauvau, 2009)

Definição: 
O Transtorno do Déficit de Atenção - Hiperatividade (TDA-H) é uma condição neuropsiquiátrica, ou seja, que envolve as células do encéfalo (neurônios), as emoções e os comportamentos. Ela afeta crianças pré-escolares, escolares, adolescentes e adultos.

Os indivíduos portadores do TDA-H apresentam diminuição da capacidade de atenção acima do esperado para  a idade. Impulsividade e / ou hiperatividade elevadas também estão presentes. 

Formas de apresentação:
O TDA-H apresenta três formas de apresentação:
-Combinada (tanto a desatenção quanto a hiperatividade/impulsividade estão presentes de forma intensa).
-Predominantemente desatenta - geralmente, a mais difícil de ser diagnosticada.
-Predominantemente hiperativa/impulsiva.

Epidemiologia:
O TDA-H ocorre em indivíduos de todo o mundo; entre 5 e 8% das crianças em idade escolar e cerca de 2,5% da população adulta apresentam a condição.
Das crianças com diagnóstico de TDA-H, entre 60 e 85% delas mantêm a condição na adolescência, e 60% na vida adulta. Os pais e os irmãos têm incidência entre 2 e 8 vezes maior em relação à população. Os parentes de 1o. grau dessas crianças apresentam maior risco de outros transtornos psiquiátricos (comorbidades): comportamento disruptivo (Transtorno de Oposição Desafiante /  Transtorno Explosivo Intermitente / Transtorno da Conduta / Transtorno da Personalidade Antissocial / Piromania / Cleptomania), ansiedade, depressão, uso de substâncias; esses também apresentam maior risco de transtornos de aprendizagem / dificuldades acadêmicas.
A prevalência do TDA-H é maior em meninos (2 a 9 vezes maior) do que em meninas. Em relação ao início dos sintomas eles geralmente, surgem aos 3 anos de idade; entretanto, quando esses não são muito graves, só são percebidos a partir das informações prestadas pelos professores da escola.

Outros Transtornos Psiquiátricos (Comorbidades):
Até 70% das crianças com TDA-H apresentam outras condições psiquiátricas: Transtornos de Aprendizagem / Transtornos de Ansiedade / Transtornos do Humor (depressão - mania) / Transtornos de Conduta / Transtornos pelo Uso de Substâncias.

História:
No início do século XX, a "síndrome hiperativa" fazia referência às crianças impulsivas, desinibidas e hiperativas; muitas dessas tinham histórico de infecção no encéfalo [encefalite]). Após, na década de 60 (século XX), o termo "lesões cerebrais mínimas" foi utilizado para as crianças com incoordenação motora, prejuízos acadêmicos e instabilidade emocional; essas não apresentavam causas neurológicas reconhecíveis. 

Causas:
O TDA-H recebe grande influência genética; a hereditariedade (genes e características transmitidas pelos pais aos seus descendentes) é de aproximadamente 75%).

Dentre as várias áreas cerebrais envolvidas em estudos relacionados ao TDA-H, duas são destacadas:
-Córtex pré-frontal (influência do neurotransmissor dopamina): envolvido com a atenção e o controle de impulsos.
-Locus ceruleus (influência do neurotransmissor noradrenalina): envolvido com a atenção.

O eletroencefalograma de crianças com TDA-H do tipo combinado apresentam atividade beta significativamente mais elevada; essas crianças apresentam tendência à modificação frequente (labilidade) do humor e a episódios de mau humor.

Alguns fatores relacionados ao desenvolvimento são associados ao TDA-H: infecção materna durante a gestação / parto prematuro /  lesões cerebrais durante a infância (devido à infecção - inflamação - trauma). Dentre os fatores psicossociais, o abuso crônico, os maus-tratos e a negligência são pontuados. Já em relação aos fatores que aumentam as chances do indivíduo apresentar a condição, destacam-se o temperamento (característica existente desde o nascimento) das crianças e a genética dos familiares.


Características clínicas:
-Hiperatividade.
-Déficit de atenção.
-Distração.
-Insistência em atividades de interesse pessoal.
-Dificuldade em concluir tarefas.
-Impulsividade (agir antes de pensar) 
-Déficit de memória.
-Déficit de raciocínio.
-Incoordenação motora.
Não há a necessidade da existência de todas as características citadas acima. O TDA-H, muitas vezes, é confundido com "preguiça", "falta de vergonha na cara", dentre outras denominações depreciativas, que colaboram para piorar o quadro psíquico do portador da condição. Diminuição da autoestima está comumente presente nesses indivíduos que necessitam, justamente, do contrário: apoio e encaminhamento para investigação diagnóstica.

Diagnóstico: 
É realizado a partir da avaliação clínica por um médico, preferencialmente um psiquiatra da infância e da adolescência. A história de vida completa do paciente (anamnese) é realizada para investigar se há  sintomas prejudiciais e persistentes de desatenção e / ou hiperatividade/impulsividade acima do esperado para o nível de desenvolvimento, em, pelo menos, dois ambientes diferentes (escola e residência, por exemplo). Esses sintomas devem iniciar até os 12 anos (regras do DSM 5 - 2013) e causar prejuízo  no desenvolvimento social ou acadêmico do paciente em questão. 
O apoio de uma equipe interdisciplinar pode envolver profissionais da medicina (outras áreas além da psiquiatria da infância e da adolescência), da psicologia, da pedagogia, da terapia ocupacional, da fonoaudiologia, da odontologia e da nutrição; essa equipe pode ser muito útil, mas, dependerá das particularidades de cada paciente.

Diagnóstico diferencial (condições que podem ser confundidas ou coexistir com TDA-H):-Características temperamentais (agitação e desatenção normais para a faixa etária, sem comprometimento em seu dia a dia), comuns em crianças menores de 3 anos.
-Transtorno de Ansiedade.
-Transtornos Depressivos.
-Transtornos Bipolares.
-Transtorno de Oposição Desafiante.
-Transtorno de Conduta.
-Transtornos Específicos de Aprendizagem.
-Transtorno do Espectro do Autismo.
-Esquizofrenia. 
-Epilepsia de pequeno mal.
-Deficiência auditiva.
-Deficiência visual.
-Hipertireoidismo.
-Hipoglicemia.

Evolução:
O futuro do portador de TDA-H é variável:
-Quando ocorre redução da gravidade dos sintomas do TDA-H (remissão), esta costuma ocorrer entre 12 e 20 anos de idade; adolescentes e adultos podem ter vida produtiva, relacionamentos interpessoais saudáveis e pequenas consequências dignas de nota. Quando ocorre remissão, a hiperatividade é  o primeiro sintoma a diminuir de intensidade, e a distração, o último.
-A maior parte dos pacientes com TDA-H apresenta remissão parcial, ficando mais vulneráveis a comportamentos antissociais / transtornos pelo uso de substâncias / transtornos do humor. Aqueles  indivíduos que diminuem a hiperatividade podem continuar impulsivos em excesso.
-Quando há problemas de aprendizagem, na maioria dos casos, os mesmos persistem durante toda a vida.
-O risco de desenvolver Transtorno de Conduta é maior em crianças com TDA-H cujos sintomas persistem na adolescência. Crianças com ambos os transtornos têm mais chances de desenvolver transtornos pelo uso de substâncias. 

Tratamento:
-Intervenções psicossociais: psicoeducação (leitura de bibliografia especializada sobre TDA-H e possíveis comorbidades psiquiátricas, por exemplo) / treinamento de habilidades de organização acadêmica / treinamento de pais  / treinamento de habilidades comportamentais na sala de aula e em casa / Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) / treinamento em habilidades sociais.
-A busca por melhora no desempenho social das crianças, redução na agressividade e melhora na situação familiar, o quanto antes, colaboram para um futuro melhor dos portadores de TDA-H.

-Farmacoterapia (medicamentos que podem auxiliar no controle dos sintomas do TDA-H) - conforme orientação médica.